para mudar tudo | um chamado anarquista (A)
Liberdade não é uma pequena bolha de direitos individuais. Não podemos nos distinguir das outras pessoas assim tão facilmente. Bocejar ou sorrir é algo contagiante, assim como também são o entusiasmo ou o desespero. Somos feitos dos clichês que rolam por nossas línguas, as músicas que grudam nas nossas cabeças e do humor de quem está ao nosso redor e que nos contagia. Se eu pego um ônibus, ele libera gases poluentes no ar que você respira; quando você toma um medicamento, ele foi produzido em processo que gera substâncias tóxicas despejadas na água que abastece nossas casas. O sistema ao qual todas as pessoas se submetem é o sistema a que você tem que se sujeitar - mas quando outras pessoas desafiam esse sistema, você também pode ver uma oportunidade de desafiar a sua realidade. Sua liberdade começa quando a minha começa e termina quando a minha termina.
Nós não somos indivíduos isolados. Nossos corpos são compostos de milhares de espécies diferentes vivendo em perfeita simbiose: ao invés de uma fortaleza fechada, nossos corpos estão em constantes processos por meio dos quais nutrientes e micro-organismos os atravessam incessantemente. Vivemos em simbiose com milhares de outras espécies: florestas e plantações absorvem o ar que expiramos. Uma matilha de lobos ou uma lagoa cheia de coaxados de rãs são tão individuais e têm tanta unidade quanto qualquer um de nossos corpos. Nós não vivemos num vácuo sendo impulsionanados por uma razão lógica. Pelo contrário: as correntes e ondas de todo o cosmo surgem através de nós.
A linguagem serve para nos comunicarmos, mas apenas porque compartilhamos isso. O mesmo acontece com ideias e desejos: nós podemos transmiti-los porque são maiores que nós. Todos somos compostos pelo caos das forças contrárias que se estendem para além de nós através do tempo e do espaço. Ao escolher quais dessas forças vamos cultivar, determinamos quais vamos plantar naquelas pessoas com quem encontramos.
Liberdade não é um objetivo que possuímos ou uma propriedade. Liberdade é uma relação que estabelecemos. Não é uma questão de estar protegido contra o mundo exterior, mas de cruzá-lo de uma forma que maximize nossas possibilidades. Isso não significa que devemos buscar consenso por si só. Tanto o conflito quanto o consenso podem nos expandir e nos engrandecer. E da mesma forma, o poder centralizado é capaz de nos compelir a transformar conflitos em um falso acordo segundo o qual os mais fortes dominam tudo. Mas ao invés de despedaçar o mundo em pequenos feudos, por que não fazer mais de nossas interconexões?
