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08/04/2017

A inscrição da porta do inferno

Por mim à cidade triste se vai,
por mim ao sofrer sem fim se vai,
por mim no meio dos que se perderam se vai.

A lei boa meu supremo criador fez mover-se;
fez-me a força celeste,
a suprema sabedoria, o primeiro amor.

Antes de mim todas as coisas feitas
eram sem fim, eu também sendo sem fim vivo.
Jogai fora tudo em que confiais, ó aqueles que entram.

Dante Alighieri 


06/07/2016

Eloisa to Abelard


Esquecendo o mundo, e pelo mundo sendo esquecida.
Brilho eterno de uma mente sem lembranças!

Cada prece é aceita, e cada desejo realizado;
Obedientes sonhos dos quais podemos acordar e chorar;
Calmos desejos, afetos sempre furiosos.
Deliciosas lágrimas, e suspiros que bóiam no paraíso.
Graça que brilha a seu arredor com raios serenos.
O murmúrio dos anjos arrulha seus sonhos dourados.
Por sua eterna rosa que floresceu no Éden.

Alexander Pope

09/03/2016

Esta velha angústia

   Esta velha angústia,  
   Esta angústia que trago há séculos em mim,  
   Transbordou da vasilha,  
   Em lágrimas, em grandes imaginações,  
   Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,  
   Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

   Transbordou.  
   Mal sei como conduzir-me na vida  
   Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!  
   Se ao menos endoidecesse deveras!  
   Mas não: é este estar entre,  
   Este quase,  
   Este poder ser que... 
   Isto. 

   Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,  
   Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.  
   Estou doido a frio,  
   Estou lúcido e louco,  
   Estou alheio a tudo e igual a todos:  
   Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura  
   Porque não são sonhos.  
   Estou assim... 

   Pobre velha casa da minha infância perdida!  
   Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!  
   Que é do teu menino?  Está maluco.  
   Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?  
   Está maluco.  
   Quem de quem fui?  Está maluco.  Hoje é quem eu sou. 

   Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!  
   Por exemplo, por aquele manipanso  
   Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.  
   Era feiíssimo, era grotesco,  
   Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.  
   Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —  
   Júpiter, Jeová, a Humanidade —  
   Qualquer serviria,  
   Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo? 

   Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa


The Sleep of Reason Produces Monsters (Goya, 1799)