18/08/2017

Imbolc

Luz e Purificação  

Entre o fim do inverno e o prenúncio da primavera, temos Imbolc - celebrado na véspera de agosto - da noite de 31 de julho para 01 de agosto no hemisfério sul. Conhecido também por Oimelc, Imbolg, Candlemass e "Noite de Brigit". 

Após um longo período de hibernação, é o renascimento e o despertar da natureza que, após sofrer todos os rigores do inverno, ainda carrega os vestígios da época mais difícil e penosa do ano. Após um período marcado pela escuridão e por dias extremamente frios, Imbolc traz a promessa de que dias melhores virão e que a escassez, trazida pelo inverno, está chegando ao fim. 

Um costume muito antigo para incentivar a volta da luz e do calor do sol, era acender várias velas, tochas e lamparinas - inicialmente, eram chamas fracas, pequenas e sutis, mas que prometiam aumentar com o passar dos dias, com a chegada da primavera e com a proximidade do verão. Com a volta lenta e gradativa da luz, os dias vão se tornando cada vez mais longos e a escuridão vai diminuindo. 

A Deusa é a própria natureza que está renascendo e desabrochando - a menina, a donzela, a virgem das flores - e esse desabrochar pode ser refletido em nosso interior. O Deus, como uma chama pequena e ainda fraca, irá se fortalecer dia após dia com a evolução da roda do ano, e com seu poder fertilizador, traz esperanças de vida.

Como um festival agrícola e um sabá de fertilidade, essa era uma época muito importante para os nossos antepassados. Após um longo período de reclusão, esse era o momento de retornar as atividades agrícolas e pastoris.

O arado tinha uma importância crucial e era a principal ferramenta do homem do campo. Era utilizado para revolver o solo castigado pelo inverno, para misturar o húmus à terra após o degelo, da neve, e para preparar os campos para a futura semeadura dando início ao ciclo da colheita. 

Com o sol, ainda fraco e tímido, a vida começa a renascer com distanciamento do inverno, a vegetação começa a surgir nos campos e, lentamente, os animais começam a ser devolvidos aos pastos. Oimelc significa "no leite" e marca o início do período de lactação dos rebanhos de gado. Durante os festejos de Imbolc, os pagãos derramavam leite nos campos para encorajar o surgimento de uma nova vida e para pedir bençãos para as sementes e para as ferramentas agrícolas - em especial, o arado.

Após o inverno - casas fechadas por muito tempo e vários meses de recolhimento - uma grande limpeza é necessária e imprescindível. Com a transição entre as estações e as mudanças ocasionadas por elas, as necessidades também mudam e passam a ser outras. É um período de novas expectativas, de preparação para uma nova fase, de planejamento e renovação. É o momento de limpar, renovar, se desfazer do que é velho e do que já passou para ceder lugar ao que é novo e que ainda está por vir.

Imbolc é o primeiro sabá do ano crescente - período de expansão, de aumento e de crescimento das marés energéticas. Para que possamos aproveitar essas marés de crescimento, precisamos entrar em sintonia e alinhamento com o ritmo natural desses fluxos de energia. Se observarmos atentamente às mudanças que acontecem ao nosso redor nessa época do ano, basta permitirmos que isso aconteça dentro de nós: uma fase de grande estímulo para novos planejamentos e projetos. É um momento muito propício para avaliações - uma análise do nosso passado (o que queremos deixar para trás) e o planejamento do nosso futuro (o que desejamos e o que queremos iniciar). 

Imbolc é também um sabá de purificação. Para que uma nova fase se inicie, todo o acúmulo de escombros, velharias e inutilidades que carregamos dentro de nós, precisa ser removido. São travas, pesos, apegos e estorvos que nos impedem de seguir em frente. Sem essa remoção - sem essa "limpeza" - não haverá espaço e nem condições para receber o que essa nova fase tem para nos oferecer. Considerando um sabá ideal para iniciações (não é uma condição ou uma obrigatoriedade), Imbolc representa novos começos. É a época para prepararmos o nosso "interior" para um novo ciclo e uma nova jornada. 

Como é um período de crescimento, o novato poderá acompanhar e vivenciar, desde o início, as marés energéticas no ciclo da vida, morte e renascimento. Desde épocas muito antigas, Imbolc é associado à deusa irlandesa Brigit (Brighit, Brid, Brigid). Ela é a deusa celta do fogo, da forja e dos ferreiros, da cura, fertilidade, inspiração, poesia e das artes, das fontes e dos poços sagrados. É a protetora dos rebanhos, do gado e das colheitas. É a protetora do fogo - a chama que não se apaga. Em Imbolc, ela é aquela que traz cura e fertilidade para a terra.       

Por ser uma deusa do fogo, e ao mesmo tempo associada a água, os celtas a homenageavam no festival de Imbolc - o festival que celebra o fim das trevas e a volta da luz. Essa noite é chamada de a "noite de Brigit". Como uma deusa tríplice - donzela, mãe e anciã - Brigit, na personificação de uma luz muito sutil e que ainda está em fase de crescimento, assume o seu aspecto de donzela e é reverenciada como a "noiva do sol" (Brigid, "Bride" = noiva em inglês). Brigit foi e ainda é uma deusa muito cultuada na Irlanda e sua presença marcante está por todos os lados. Os casais que desejavam ter filhos, mas que tinham problemas com esterilidade, faziam oferendas em poços, bebiam a água de fontes consagradas à ela e pulavam fogueiras na noite dos festejos. Como um festival do fogo, várias fogueiras eram acesas e as pessoas as pulavam pedindo fertilidade para os campos, o homem e para os animais. Atravessavam a fumaça purificadora e jogavam as cinzas na terra com a intenção de purificá-la e prepará-la para receber as sementes. Na impossibilidade de extinguir e de reprimir os cultos em sua homenagem, Brigit foi "cristianizada" pela igreja, e acabou sendo transformada em Santa Brígida de Kildare - local de seu santuário na Irlanda. Para que esse festival pagão fosse esquecido, a igreja adotou Imbolc dando-lhe um novo nome: Candlemas - a festa da luz.

Wica Gardneriana - Manifesto Gardneriano

11/07/2017

Solstício de Inverno (Yule)

Por ser um evento astronômico, o Solstício de Inverno é celebrado em datas móveis ano após ano - ele acontece entre os dias 20 e 24 de junho no hemisfério sul e entre os dias 20 e 24 de dezembro no hemisfério norte.
É um sabá menor que marca o argue do inverno e, por ser o período de maior escuridão (a noite do solstício de inverno é a noite mais longa do ano), temos pouquíssima luminosidade solar - é o poder solar declinando dando lugar à escuridão. 
É quando o hemisfério em referência recebe a menor incidência de luz solar - o sol atinge seu ponto mais baixo no horizonte e as temperaturas caem consideravelmente (se é o dia mais curto com a noite mais longa, então a escuridão prevalece). 
Yule marca o meio da estação - chamado também de "meio do inverno - midwinter". 
Temperaturas baixas e dias nublados permitem que a natureza, em geral, entre em um tipo de hibernação (época de descanso e refazimento). 
Os antigos, com grande conhecimento astronômico, sabiam que logo após o solstício, os dias ficariam mais longos e as noites mais curtas. Após a noite do solstício de inverno, a escuridão vai dando lugar à claridade e, consequentemente, os dias vão ficando mais longos novamente. É a escuridão que vai cedendo lugar à luz, que gradativamente vai se fortalecendo. 
É a celebração do nascimento da criança da promessa - a criança divina que é a própria personificação do deus de chifres, o deus renascido. 
Para incentivar a volta do sol, do seu calor, sua luz e seu poder fertilizador, é uma tradição muito antiga queimarmos uma tora na lareira - a tora de Yule (Yule long) - e enfeitemos portas e janelas com visco, folhas de pinheiro e azevinho. 
Depois de Yule, inicia-se a fase crescente do ano (fase de crescimento, expansão, revitalização) que se estenderá até Litha, o solstício de verão.



Tora de Yule - Yule Long
Ainda existe a antiga tradição onde toda família sai à procura da tora que será queimada na lareira em Yule, não pode ser qualquer madeira. É uma grande festa que começa alguns dias antes da queima - a tora precisa estar seca e devidamente preparada. 



As festividades natalinas e suas origens no paganismo

Sempre lemos que o mundo ganhou o natal da igreja católica, e esta por sua vez, o recebeu do paganismo, ou que o natal é a cristianização do Yule.
O que são as luzes e os enfeites pendurados na árvore como decoração? São símbolos do sol, da lua e das estrelas, como aparecem na árvore cósmica da vida? Pesquisando sobre esse assunto, encontramos várias explicações. Mas uma que nos pareceu bem interessante foi que quando o frio intenso do inverno desfolhava todas as árvores, era um costume pagão enfeitá-las para atrair o "espírito da natureza" novamente, e pedir que elas brotassem, frutificassem e voltassem à vida. Além dos enfeites, eles colocavam várias oferendas aos pés das árvores (principalmente do pinheiro - uma árvore resistente aos rigores do inverno), o que também, pode ter dado origem ao costume de oferecer presentes no natal. 
Então, a tradição de decoar árvores de natal é um costume que se desenvolveu dos bosques de pinheiro associados à grande deusa?  
A tradição de usar pinheiros como árvores de natal, é fruto de uma antiga herança dos primitivos cultos de adoração às árvores. Encontramos esses cultos em quase todos os povos, culturas, raças e crenças (germânicos, celtas, nórdicos, romanos, gregos, etc).
Os antigos pagãos associavam suas divindades e alguns acreditavam que elas realmente habitavam nelas e, por sua razão, algumas eram tidas como sagradas. Temos vários exemplos: para os druidas, podemos citar o carvalho; para os egípcios, temos a palmeira; para os romanos, temos os abetos enfeitados com cerejas negras para as comemorações da saturnália; os chineses tinham o costume de enfeitar as catacumbas com pinheiros; para os povos nórdicos, temos o abeto sagrado de Odin, etc.
Mas por que o pinheiro é o representante "oficial" da árvore de natal? Se pesquisarmos, vamos encontrar várias explicações e dente elas temos:
  • Pode ser pelo ser formato triangular. O triângulo, desde os períodos paleolíticos e neolíticos, foi adotado como um símbolo fálico. O falicismo é o culto ao ligan (pênis) e ao yoni (vulva). Desde a pré-história o falo possui uma dimensão sagrada como o doador da vida e a vulva, como o seu receptor;
  • Alguns associam o pinheiro à imortalidade, longevidade, regeneração e renascimento. Existem relatos da ligação do pinheiro à ressurreição desde os tempos da mesopotâmia, no mito de Ninrode e de Semírames; 
  • O formato triangular da região pubiana é associado à deusa Vênus (Afrodite) - por isso o nome "monte de vênus", símbolo de fertilidade;
  • Na mitologia grega, as árvores eram utilizadas para reverenciar os deuses. Representavam a evolução e a elevação do homem e eram consideradas como "intermediárias" entre o céu (sua copa conífera apontava para o alto), a terra (seu tronco) e o submundo (suas raízes). Por isso, a escolha do pinheiro: aquele que aponta para o céu.
Curiosamente, na Itália, o lugar do Papai Noel é, muitas vezes, tomado por uma bruxa chamada Befana (Epifania).
Befana voa nas redondezas na décima segunda noite depois do natal, em sua vassoura, trazendo presentes para as crianças merecedoras através das chaminés.
Befana é uma bruxa que presenteia as crianças que se comportam bem durante o ano, para aquelas que não se comportaram, ela colocava um "carvão" dentro das meias que eram penduradas nas lareiras. Ela voa pelos céus montada em uma vassoura, bode ou burro, carregando um saco cheio de doces e guloseimas.
O "dia da Epifania - dia de Befana" é celebrado em 06 de janeiro (décima segunda noite depois do dia 25 de dezembro - uma data cheia de simbolismos na bruxaria Italiana e do leste europeu).
Coincidentemente, é também o dia dos três reis magos, onde eles ofertavam presentes ao menino Jesus - mitologia cristã.

Wica Gardneriana - Manifesto Gardneriano 


20/05/2017

O carrapato

Escalando, perfurando e sugando a carne alheia ia vivendo o carrapato, sem deixar transparecer o mínimo de si, sem necessidades além do sangue de outros animais. Um dia ele apareceu (da forma inexplicável com a qual os carrapatos aparecem) em uma cova coletiva. Em meio aqueles restos miseráveis com uma legião de vermes à atacar as carcaças fedorentas ele disputava aquele pútrido esqueleto. E sem seu necessário néctar rubro, naquela cova, o carrapato morreu anêmico.

19/05/2017

Hello darkness, my old friend

Você sempre está do meu lado, dizendo que qualquer coisa estará aqui. Quando me aborreço, quando estou com raiva, entediada, andando em ruas com trânsito movimentado, em lugares altos, quando tenho acesso a medicamentos, nas noites de insônia, nos momentos de culpa, desapontamento, preguiça... Nosso diálogo é frequente e me sinto confortável tendo você como opção. 
Em alguns momentos não aguento esperar por você, já tentei de várias formas antecipar nosso encontro, mas você não me quis, já tomei muita surra por tentar cruzar seu caminho, em alguns momentos egoístas limparam minha bagunça sem oferecer-me nada em troca e em outros esperei contente junto com os efeitos colaterais que meu sistema parasse. 
Espero sempre o momento de juntar-me a você e desaparecere, olhos lívios apagando-se lentamente, libertando-me desta prisão...

10/05/2017

Samhain

Samhain é um sabá celebrado na noite de 30 de abril (véspera de 1° de maio - no H.S.) e na noite de 31 de outubro (véspera de 1° de novembro - H.N.). Dentro da Roda do Ano, ele é o sabá oposto e complementar ao Beltane.

É um dos quatro grandes sabás, é um festival do fogo onde fogueiras e tochas são acesas para que haja estímulo e encorajamento para o retorno do Sol (que só voltará depois de Yule e se fortalecerá gradativamente com a proximidade do Imbolc).

É o momento de colher o que restou (é o fim das colheitas), de sacrificar os animais e de estocar o máximo possível para a chegada do inverno - talvez seja por isso que Samhain é também chamado de "Festival das Maçãs", que são frutas características da época, muito resistentes ao frio e que são colhidas praticamente no fim do outono e início do inverno. Maçãs são consideradas um síbolo desse sabá.

Para os povos antigos que dependiam dos rebanhos e das colheitas, esse deveria ser um período de muitos desafios. Eles não sabiam quanto tempo o inverno duraria, se os estoques seriam suficientes para alimentar todos, qual seria o rigor do frio, se os animaos sobreviverim, etc. Uma época em que eles não tinham certeza se conseguiriam atravessar e chegar ao fim da estação mais fria e penosa do ano - uma questão de sobrevivência; de vida e morte.

Consequentemente, isso gera insegurança e incerteza; fragilidade psicológica, emocional, física e econômica (era o fim de uma fase e a espera "tensa" pelo início da próxima; fase de términos e de inícios). Talvez essa expectativa criada pela força energética desse período (energia em declínio; marés energéticas descrescendo) tornasse os véus que separam o mundo dos vivos do mundo dos mortos, mais frágil, fino, sensível e tênue - então nessa noite, a passagem de um mundo para o outro fica livre e os mortos e antepassados podem atravessá-la. É um momento para celebrarmos, de lembrarmos e honrarmos nossos ancestrais (comunhão com os que já foram).

Muitos consideram uma época propícia para adivinhações e profecias - "uma noite mágica" - onde existe um "clima" psicológico favorável para que isso aconteça. Os antigos, que na ansiedade e na incerteza causadas pela época, queriam saber como seria o próximo ano (as plantações e os pastos, as colheitas, os rebanhos, sobre a saúde dos familiares, fertilidade, etc) e, por consequência, muitos folclores e métodos de adivinhações surgiram (por exemplo, a interpretação das nozes e das cinzas das fogueiras, a brincadeira da maçã, a distribuição dos pedaços de bolo, etc).

Dentro da roda do ano, é a época da "morte" do deus de chifres onde ele se torna o senhor da morte (os antigos se fartavam de carne do rebanho recém sacrificado para honrá-lo). Na verdade, o Deus nunca "morre", mas eles perde suas forças e poder, e assim fica a promessa de seu renascimento dentro do ventre da deusa (a criança da promessa que ainda surgirá em Yule).

Podemos dizer que o mesmo acontece na natureza: o inverno se inicia, os dias se tornam mais curtos e as noites mais longas, a vegetação "adormece" esperando para brotar e florescer novamente, os animais se recolhem esperando a época para retornarem aos campos, as sementes permanecem ocultas dentro da terra, como se estivessem em uma "incubadora" apenas esperando para germinarem com a volta do calor e luz do sol. Samhain é uma fase difícil, mas é necessária para que haja uma renovação - pois a morte vem a vida e da vida vem a morte. É uma fase difícil, mas passageira.

Interiormente, é um período de reflexão e análise (tempo de escuridão/trevas; energias em declínio; marés vazantes; ano decresente). Como é um sabá que faz alusão à morte o tempo todo, naturalmente lembra "finalização" e "término". Devemos encarar essa fase analisando tudo o que passou e já pensando no que está por vir.  

Wica Gardneriana - Manifesto Gardneriano