06/05/2017

Assim como tu vives

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras verzes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!" Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca  ouviu nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche 

04/05/2017

Caminho mágico

Nenhum iniciado e nenhum líder de coven promete nada. A única coisa que o caminho espiritual, principalmente a bruxaria, ensina e faz aflorar a todo momento é aquilo que as pessoas são. Mais cedo ou mais tarde, toda a neurose, toda a feiura, tudo o que for sistematicamente escondido vai aparecer. A maioria das pessoas acha muito embaraçoso ser como são, estar onde estão; elas entram para um coven, um templo ou uma ordem esotérica, na esperança de que alguém lá dentro invente uma alternativa para toda a sujeira, dissimulação, mentira. Elas esperam que alguém lhes diga: "Eu vou lhe arrumar uma máscara nova, é só você começar a usá-la".
Então essas pessoas começam a fingir o que não são e imaginam que as outras pessoas as verão como pessoas diferentes por usarem o disfarce daquilo que gostariam de ser, mas na verdade nenhum iniciado pode apresentar nenhuma promessa bonita e colorida. O que essas pessoas procuram é por saídas miraculosas do caminho em que estão. Isso não existe, não há nenhuma placa na estrada dizendo: "Disneylância, logo ali!"
O que as pessoas começam a perceber é que não existe nenhum lugar para onde possam correr e se esconder. Em um verdadeiro aprendizado, as pessoas percebem todo mecanismo mesquinho, egoísmo e  fingimento que alimentam o tempo todo, no aprendizado verdadeito. A grande maioria continua apenas fingindo, tentando racionalizar a própria situação para se protegerem e assim satisfazerem seu ego.
É interessante que quando essas pessoas acham que estão trabalhando para seguir adiante, para progredir e crescer, na verdade estão andando para trás, tentando se garantirem e se preencherem. As pessoas tem milhares de mecanismos de defesa; eles surgem das leituras que fazemos, dos conhecimentos que acumulamos, dos sonhos que sonhamos. Mas se a busca é real, então surge um momento em que a pessoa tem que se perguntar:
"O que realmente significa espiritualidade? Será que ela é apenas a tentativa de tentar ser religioso? Será que é ser devoto e bondoso? Ou será que é o desejo de saber mais que os outros?" Depois do tempo em um coven, geralmente após um ou dois anos (ou meses para alguns), o descontentamento se abate sobre os falsos buscadores, porque toda tentativa de mudar o tom de voz, falar manso e parecer esperitual, tende a desabar.
Depois de algum tempo essas tentativas artificias de se parecer espiritual começam a ser esquisitas, desajeitadas, ridículas demais. Esses padrões de comportamento, que essa gente pretendia tornar um hábiro ou uma segunda natureza, estabelecem a confusão dentro delas.
Me parece que nessa hora pouquíssimas pessoas são honestas o suficiente para perguntar ao seu sarcedote: "O que é que faço agora?" e então a neurose e o descontentamento se acentuam. Nada mais se encaixa e essa gente não consegue estabelecer uma ligação com os ensinamentos. Tentar entrar de assalto na espiritualidade colecionando padrões de comportamento, maneiras doces de falar, pensar, se comportar, tudo isso não passa de uma imensa coleção de imbecilidades que essa gente tenta impor a elas mesmas. A verdadeira iniciação nasce da entrega.
Poquíssimas pessoas estão realmente dispostas a abrir mão de toda imbecilidade, neurose, doença mental que acumulam durante a vida. Quando alguém realmente abrir mão e se tornar disposto a renunciar a tudo isso, então a iniciação verdadeira acontece.
Do contrário, a única coisa que uma pessoa assim arrastará pela sua vida a fora, será um título mentiroso e irreal. E isso é verdadeiramente a maior mentira que alguém pode viver.

Conventiculo Strix Alba Lvnae 


08/04/2017

A inscrição da porta do inferno

Por mim à cidade triste se vai,
por mim ao sofrer sem fim se vai,
por mim no meio dos que se perderam se vai.

A lei boa meu supremo criador fez mover-se;
fez-me a força celeste,
a suprema sabedoria, o primeiro amor.

Antes de mim todas as coisas feitas
eram sem fim, eu também sendo sem fim vivo.
Jogai fora tudo em que confiais, ó aqueles que entram.

Dante Alighieri 


23/10/2016

ComCiência, exposição Patricia Piccinini

O Ministério da Cultura, o GRUPO SEGURADOR BB E MAPFRE e Hermes Pardini apresentam "ComCiência - Patricia Piccinini", primeira exposição individual da premiada artista autraliana no Brasil. Suas obras, ao mesmo tempo incômodas e sedutoras, mas cheias de familiaridade e doçura, geram uma empatia quase imediata junto ao público.
Seu trabalho é realizado com uma grande variedade de materiais e linguagens. Com esculturas feitas de silicone e fibra de vibro, fotografia e vídeo, passando também pelo desenho e pela pintura, as obras de Piccinini nos convidam a refletir acerca de nossos próprios sentimentos, ampliando a compreensão sobre questões complexas e delicadas como a imposição de padrões de beleza, o racismo e a xenofobia.
Com uma curadoria que evidencia certa relação alquímica entre natureza e tecnologia no trabalho da artista, a mostra flerta tanto com o surrealismo como com o hiper-realismo, e questiona nossa semelhança e vínculo com os seres criados por ela.

Centro Cultural Banco do Brasil

AMOR À SEGUNDA VISTA

the comforter - the long awaited
A obra de Patricia Piccinini é um enigma a ser decifrado por cada um de nós. Se em primeiro momento nossa reação é de repulsa ou de estranhamento diante dessas esquisitas criaturas, em um segundo instante a artista consegue fazer aflorar um sentimento de empatia ao nos colocar diante do olhar profundo de cada um desses seres, promovendo, de maneira surpreendente, um encontro emtre algo tão estranho e nossos melhores sentimentos.
Patricia fala de criaturas imaginárias, fantásticas, mas sua pesquisa também se baseia na ciência genética e na análise do comportamento humano. Sua obra explora a incerteza entre o futuro geneticamente modificado e a imaginação livre do sonho coletivo, os medos, os fascínios do inconsciente de todos.
A artista usa técnicas do cinema, da escultura e da animação e as misturas com conhecimento científico para produzir imagens tridimensionais de seres que até podem nos parecer surreais hoje, mas com os quais, com o passar do tempo e com a convivência, poderíamos nos acostumar - fenômeno que, aliás, já ocorreu tantas vezes, sempre que o novo se apresenta de forma surpreendente para nós, e é, rapidamente, absorvido e transformado em "normalidade".
Na vida, algumas coisas, uma vez feitas, não podem ser desfeitas. Uma vez criadas, não podem mais ser contidas. E isso acontece tanto com a arte quanto com uma criatura geneticamente modificada - e aquele que acha que pode controlar suas criações está se enganando: assim que saem de nossas mãos, elas ganham vida própria.
O que aconteceria, então, se fôssemos capazes de criar máquinas com genes? E se essas máquinas, extremamente duráveis, se transformassem em seres com vontade própria, com sentimentos e essências orgânicas dentro de si? Reunimos um grupo de obras que traz à vista essa possibilidade (e, em oposição ao conceito de biônico, essa é uma proposta de criação mecânica orgânica). A fascinação dos seres humanos por suas máquinas poderão, a partir daí, encontrar formas de expressão de sentimento e de singularidade, e irão, assim, se descolar da máquina e se aproximar do humano.
Nessa tentativa de humanizar tudo, podemos quebrar uma linha que divide o lugar das coisas e o lugar dos homens. Recentemente, a discussão em torno dos biocombustíveis explicitou essa relação, quando, pela primeira vez na história, tivemos que decidir se um grão alimentício deveria ser usado para alimentar uma pessoa ou produzir combustível para uma máquina. A verdade por trás desse dilema é que a fome da máquina é muito mais insaciável do que a fome humana - algo que pode nos tornar ainda mais vulneráveis diante de nossas criaturas.
Uma outra hipótese: e se pudéssemos criar seres para nos substituir em tarefas "mundanas" como amamentar nossos filhos, colocá-los para dormir, dar-lhes carinho, enquanto nos ocupamos com tantas outras coisas importantes da vida moderna? E se pudermos delegar o amor e a procriação para um obejeto, como uma bota feminina, que é o que ocorre na obra Boot Flower? Ou nos permitir entender que, em um mundo ocupado por esses novos seres, os estranhos somos nós, como o vídeo The Gathering? Podemos nos perguntar, ainda, quem  é o ser que está deitado no colo do menino de The Long Waited. Seria ele um ancestral do menino ou o inverso? O que há em comum entre eles é que ambos compartilham uma face humana em corpos distintos, e ambos demonstram um carinho tão familiar.
Entrar no CCBB é como entrar em um lugar onde a convergência entre ciência e consciência aconteceu, um lugar onde o tempo se fundiu e o passado e o futuro coabitam lado a lado, onde iniciamos - a maior de todas as transformações: a de nosso DNA.
Para visitar esse lugar, é preciso entender e aceitar que ele tem suas próprias regras, já que as regras de nossa ciência, transitória, são insuficientes para explicar o que aqui acontece. Ainda assim, ficará claro para os visitantes que, dentro de toda essa aparente anormalidade, uma essência humana permanece latente e a possibilidade do amor ainda existe. Depois de rejeitar essas criaturas, aprendemos com elas e nos damos uma segunda chance. Vemos, então, que é possível existir o amor à segunda vista.

Marcello Dantas, curador

Data: 12.10.16 a 09.01.17
Local: Centro Cultural do Banco do Brasil


undivided - the surrogate

31/07/2016

comece por reconectar o individual e o todo

para mudar tudo | um chamado anarquista (A)

Liberdade não é uma pequena bolha de direitos individuais. Não podemos nos distinguir das outras pessoas assim tão facilmente. Bocejar ou sorrir é algo contagiante, assim como também são o entusiasmo ou o desespero. Somos feitos dos clichês que rolam por nossas línguas, as músicas que grudam nas nossas cabeças e do humor de quem está ao nosso redor e que nos contagia. Se eu pego um ônibus, ele libera gases poluentes no ar que você respira; quando você toma um medicamento, ele foi produzido em processo que gera substâncias tóxicas despejadas na água que abastece nossas casas. O sistema ao qual todas as pessoas se submetem é o sistema a que você tem que se sujeitar - mas quando outras pessoas desafiam esse sistema, você também pode ver uma oportunidade de desafiar a sua realidade. Sua liberdade começa quando a minha começa e termina quando a minha termina.
Nós não somos indivíduos isolados. Nossos corpos são compostos de milhares de espécies diferentes vivendo em perfeita simbiose: ao invés de uma fortaleza fechada, nossos corpos estão em constantes processos por meio dos quais nutrientes e micro-organismos os atravessam incessantemente. Vivemos em simbiose com milhares de outras espécies: florestas e plantações absorvem o ar que expiramos. Uma matilha de lobos ou uma lagoa cheia de coaxados de rãs são tão individuais e têm tanta unidade quanto qualquer um de nossos corpos. Nós não vivemos num vácuo sendo impulsionanados por uma razão lógica. Pelo contrário: as correntes e ondas de todo o cosmo surgem através de nós.
A linguagem serve para nos comunicarmos, mas apenas porque compartilhamos isso. O mesmo acontece com ideias e desejos: nós podemos transmiti-los porque são maiores que nós. Todos somos compostos pelo caos das forças contrárias que se estendem para além de nós através do tempo e do espaço. Ao escolher quais dessas forças vamos cultivar, determinamos quais vamos plantar naquelas pessoas com quem encontramos.
Liberdade não é um objetivo que possuímos ou uma propriedade. Liberdade é uma relação que estabelecemos. Não é uma questão de estar protegido contra o mundo exterior, mas de cruzá-lo de uma forma que maximize nossas possibilidades. Isso não significa que devemos buscar consenso por si só. Tanto o conflito quanto o consenso podem nos expandir e nos engrandecer. E da mesma forma, o poder centralizado é capaz de nos compelir a transformar conflitos em um falso acordo segundo o qual os mais fortes dominam tudo. Mas ao invés de despedaçar o mundo em pequenos feudos, por que não fazer mais de nossas interconexões?